Fala, pessoal! Hoje trazemos mais uma notícia nada animadora: o aumento do imposto de importação de componentes de PC agora é oficial. De acordo com reportagem do G1, o governo federal espera arrecadar cerca de R$ 14 bilhões em 2026 ao elevar a tarifa de importação de mais de mil produtos, incluindo diversos itens de tecnologia e eletrônicos.
A medida atinge diretamente componentes essenciais para computadores — base não apenas do mercado gamer, mas de toda a cadeia de produção digital. E isso acontece justamente em um momento em que o setor já vinha pressionado pelo aumento abrupto das memórias RAM no mercado internacional. Ou seja, o cenário que já era preocupante acaba de ganhar mais um fator de encarecimento.
No Brasil, quando se trata de tecnologia, infelizmente parece que sempre há espaço para piorar o que já estava difícil.
O que mudou nas tarifas
Abaixo estão alguns dos principais reajustes divulgados:
Componente |
Antes |
Agora |
|---|---|---|
GPU |
0% – 2% |
12,6% – 18% |
CPU |
0% |
7,2% – 12,6% |
Memória RAM |
0% – 2% |
12,6% |
Placa-mãe |
0% – 2% |
12,6% – 16% |
Na prática, isso significa hardware mais caro no Brasil quase imediatamente. O aumento chega rápido ao varejo e pesa no bolso de quem trabalha, estuda ou produz usando essas máquinas.
E para quem defende a medida como forma de proteger a indústria nacional, fica a pergunta: encarecer ferramentas essenciais realmente torna alguém mais competitivo? Em um cenário cada vez mais impulsionado por tecnologia e inteligência artificial, reduzir ou isentar impostos sobre esse setor não faria muito mais sentido do que dificultar o acesso a ele?
Protecionismo sem indústria forte
A justificativa oficial é estimular a indústria nacional. O problema é que o Brasil não possui produção relevante de processadores, placas de vídeo ou memória RAM em escala competitiva global.
Sem uma cadeia industrial consolidada, o aumento do imposto de importação de componentes de PC não fortalece a produção interna — apenas encarece produtos que continuam vindo de fora.
Protecionismo funciona quando existe capacidade real de substituir o que está sendo taxado. Caso contrário, o custo recai diretamente sobre quem compra e sobre quem produz. E, como já mencionado, a lógica costuma ser aumentar taxas para “equilibrar” o mercado, em vez de reduzir barreiras para incentivar crescimento. No fim, não se cria competitividade — apenas se eleva o preço de entrada em um setor que já enfrenta dificuldades estruturais.
Memória RAM mais cara e efeito acumulado
O cenário é ainda mais sensível porque a memória RAM já vinha subindo no mercado internacional. Com a nova tarifa, o consumidor brasileiro sofre um efeito duplo: alta externa somada ao aumento de imposto sobre tecnologia.
O resultado tende a ser uma escalada relevante nos preços finais de PCs completos e upgrades.
Impacto além dos games
Embora o debate costume se concentrar no universo gamer, o impacto no setor de tecnologia no Brasil é muito mais amplo. Computadores de alto desempenho são ferramentas de trabalho para desenvolvedores, artistas digitais, editores, engenheiros e pequenos estúdios. Não estamos falando de luxo, mas de estrutura básica de produção.
Quando o hardware encarece, o investimento diminui. Profissionais adiam upgrades, empresas operam com máquinas defasadas e pequenos negócios perdem eficiência. Fala-se muito sobre produtividade no Brasil, especialmente diante das recentes discussões sobre carga horária de trabalho, mas raramente se coloca na equação o defasamento tecnológico causado pelo alto custo de equipamentos — sem nem entrar em outros gargalos estruturais que também afetam o desempenho.
Em um cenário global cada vez mais competitivo, encarecer tecnologia é, inevitavelmente, encarecer produção.
Arrecadação no curto prazo, custo no longo e atraso no futuro
A expectativa de arrecadar bilhões pode gerar alívio imediato nas contas públicas. Mas tecnologia não é apenas um item de consumo — é infraestrutura produtiva, base da economia digital.
Ao elevar o imposto de importação de componentes de PC sem que exista uma indústria nacional capaz de suprir essa demanda com competitividade, o país preserva a dependência externa e ainda encarece o acesso interno. Ou seja, não resolve o problema estrutural e adiciona um novo custo ao sistema.
A discussão vai muito além de montar ou atualizar um computador. Trata-se do acesso às ferramentas que sustentam inovação, produtividade e crescimento em um mercado cada vez mais digitalizado.
Conclusão
Não há problema algum em ter uma base agrária forte. O agronegócio é um pilar relevante da economia brasileira. Os próprios Estados Unidos são uma das maiores potências agrícolas do mundo — e nem por isso deixaram de investir pesadamente em tecnologia, indústria e inovação. O ponto nunca foi abandonar o campo, mas evoluir além dele.
O Brasil não carece de talento. Pelo contrário. O país forma pesquisadores, cientistas e profissionais altamente qualificados, com contribuições relevantes inclusive em áreas como a medicina — avanços que por si só mereceriam um debate exclusivo. Capacidade intelectual existe. O que falta é um ambiente estrutural que transforme potencial em desenvolvimento sustentável.
Quando impostos aumentam sobre setores estratégicos como tecnologia, a justificativa costuma ser fortalecimento econômico. Porém, sem retorno visível em infraestrutura, inovação ou incentivo industrial consistente, a sensação é de estagnação. O debate deixa de ser apenas tributário e passa a ser sobre prioridades nacionais.
É possível ser forte no agro e, ao mesmo tempo, protagonista em tecnologia. O que impede esse salto não é vocação econômica, mas barreiras estruturais e decisões que encarecem justamente as ferramentas que impulsionam produtividade e inovação.
Se essa lógica continuar prevalecendo, o Brasil seguirá conhecido como o celeiro do mundo — relevante na produção primária, mas distante do protagonismo tecnológico que define as economias mais prósperas.

