Fala pessoal! Hoje esse post seria para falar dos indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação, mas o sentimento de indignação é tão grande que resolvi dedicar esse espaço a discutir por que o Oscar continua tratando animação — especialmente anime — como algo menor, mesmo quando estamos falando de verdadeiras obras de arte.
E sim, isso inclui o fato de vermos filmes como Elio na lista, enquanto produções como Demon Slayer: Infinity Castle ou Chainsaw Man – Reze Arc simplesmente não aparecem — mesmo considerando nível técnico, direção, animação, narrativa e impacto cultural.
O problema não é só a lista de 2026 — é um padrão
O que incomoda não é apenas “quem entrou” — é quem SEMPRE fica de fora.
Existe um padrão claro nas premiações:
- Animações 3D de grandes estúdios ocidentais são tratadas como o “padrão de qualidade”
- Animações 2D, principalmente japonesas, precisam ser excepcionais ao extremo só para serem consideradas
Criou-se uma ideia quase automática de que 3D = superior, quando isso simplesmente não é verdade. Técnica não é só software — é direção, fluidez, composição, linguagem visual e impacto emocional.
E, nesse quesito, muitas produções japonesas estão anos-luz à frente.
O Oscar não premia os melhores — premia os que se encaixam na narrativa deles
Vamos falar o que muita gente pensa e pouca gente fala: O Oscar deixou de ser um prêmio puramente artístico faz tempo. Ele premia o que se encaixa na narrativa institucional, política e industrial da Academia. Não que na sua origem isso não fosse verdade, mas havia ao menos o critério de qualidade em premiar as obras, agora parece premiar puramente a ideologia.
Isso não significa que os filmes premiados sejam ruins — mas significa que qualidade artística por si só não decide nada.
Campanha de estúdio, discurso alinhado, visibilidade em Hollywood e “palatabilidade cultural” pesam tanto quanto — ou mais — do que inovação.
E é aí que muitos animes ficam para trás.
A sub-representação de animes não é coincidência
Mesmo com o crescimento global da indústria japonesa de animação, o reconhecimento do Oscar é extremamente limitado.
O Studio Ghibli é praticamente a única exceção recorrente — e ainda assim, uma fração mínima de suas obras-primas recebeu reconhecimento se compararmos com sua importância artística.
Mas o caso mais simbólico de todos é outro.
Akira (1988) — a obra que mudou a animação mundial e nunca teve reconhecimento
Quando falamos de injustiça histórica, é impossível não citar Akira, a icônica animação da moto vermelha, dirigida por Katsuhiro Otomo.
Esse filme:
-
redefiniu a animação adulta
-
moldou o cyberpunk no cinema
-
influenciou obras como Matrix
-
elevou o anime a outro patamar no Ocidente
-
é estudado até hoje por direção, trilha e animação
E mesmo assim…
Nunca foi indicado ao Oscar.
A categoria “Melhor Filme de Animação” só foi criada em 2001, o que por si só já revela como a Academia historicamente tratava a animação como uma forma de arte secundária, quase como um subproduto do cinema “de verdade”.
Mas esse argumento não inocenta o Oscar no caso de Akira.
Porque muito antes de 2001, a Academia já havia reconhecido o valor artístico da animação. Em 1939, Walt Disney recebeu um Oscar honorário por Branca de Neve e os Sete Anões — uma premiação histórica e merecida, já que o filme foi um marco técnico e cultural.
Ou seja, quando a animação vinha do eixo que Hollywood reconhecia e produzia, ela era tratada como revolução artística. Quando a revolução veio do Japão, com uma obra como Akira, o reconhecimento institucional simplesmente não existiu.
Isso deixa claro que o problema nunca foi apenas “não haver categoria”. O problema sempre foi quais obras eram vistas como dignas de legitimação cultural pela Academia.
Assim, o caso de Akira se torna simbólico:
- Uma das obras mais influentes da história da animação mundial
- Um filme que redefiniu estética, narrativa e público-alvo da animação
- Um divisor de águas na popularização do anime no Ocidente
…surgiu em um período em que o Oscar ainda tratava animação como arte menor — a menos que viesse do seu próprio centro cultural.
E o padrão não desapareceu com a criação da categoria em 2001. Ele apenas mudou de forma:
Hoje, animes revolucionários continuam fora do radar principal, enquanto produções alinhadas ao modelo industrial hollywoodiano dominam as indicações.
Não é coincidência. É continuidade histórica.
“Mas e os filmes da Disney/Pixar?”
Ninguém está dizendo que Disney ou Pixar são ruins. Elas criaram clássicos.
O problema é o momento atual.
Nos últimos anos, vemos:
-
continuações desnecessárias
-
fórmulas repetidas
-
narrativas seguras
-
foco em mercado e marca
Qual foi a última obra realmente inovadora da Disney/Pixar que não dependia de franquia ou nostalgia? Agora estamos chegando em Toy Story 5 — um filme que existe claramente por valor comercial, não por necessidade narrativa.
Enquanto isso, animes arriscam linguagem, estilo visual, estrutura e temática — e ficam de fora.
Então por que Elio entra, mas Demon Slayer não?
Você pode gostar de Elio. Mas comparar a escala de produção, direção de ação, coreografia animada e impacto cultural de Demon Slayer ou Chainsaw Man com ele e dizer que a exclusão é puramente “mérito artístico” é difícil.
A verdade é mais simples:
- O Oscar favorece o que é familiar ao seu ecossistema
- Favorece o que circula dentro da indústria americana
- Favorece narrativas seguras
E isso faz com que obras que expandem o que a animação pode ser acabem ignoradas.
Conclusão: o Oscar não é mais termômetro de excelência em animação
A animação é uma das formas de arte mais criativas, técnicas e expressivas do cinema. Ela permite mundos impossíveis, narrativas visuais complexas e uma liberdade estética que o live-action muitas vezes não alcança.
Mesmo assim, o Oscar ainda a trata como:
-
uma categoria secundária
-
um produto essencialmente familiar
-
ou uma plataforma conveniente para discursos institucionais
Enquanto essa mentalidade persistir, o cenário continuará previsível:
- Obras japonesas expandindo os limites da linguagem da animação
- Hollywood sendo legitimada como padrão de excelência
E isso não é sobre “gostar mais de anime”. É sobre coerência artística.
Se um prêmio se apresenta como referência máxima de qualidade cinematográfica, ele precisa avaliar inovação, linguagem, impacto cultural e mérito técnico — não apenas familiaridade industrial, campanhas de estúdio ou alinhamento com narrativas confortáveis ao seu próprio sistema.
Mas há tempos o Oscar — assim como várias grandes premiações — deixou de funcionar como um termômetro confiável de excelência artística. Em vez disso, tornou-se um espaço onde interesses de indústria, posicionamentos institucionais e discursos ideológicos frequentemente se sobrepõem ao critério puramente artístico.
E quando isso acontece, o prêmio pode continuar sendo relevante como espetáculo — mas deixa de ser referência absoluta de qualidade.
E o público percebe isso. Basta olhar para o sucesso massivo de bilheteria e o impacto cultural de muitas obras ignoradas nessas premiações. A audiência reconhece valor, inovação e emoção mesmo quando as estatuetas não acompanham.
No fim, a história do cinema não é escrita apenas pelos troféus — ela é escrita pelas obras que permanecem.

Excelente texto, concordo plenamente com os tópicos apresentados. Faz tempo que oscars (e muitos outros prêmios do tipo) não passam mais credibilidade ou reconhecimento para obras que merecem. Sei que o foco aqui foi em questão a animação japonesa, mas o mesmo acontece com diversos filmes em outras categorias, principalmente se forem de origem estrangeira. O foco deles não é apresentar ideias novas, premiar filmes e animações que merecem o merito, mas sim, apenas saciarem o próprio ego. Não há mais legitimidade, tudo é planejado desde o início de quem será o premiado, independente se houve um outro filme ou animação que superou todos os outros. E concordo também com a questão de estarmos passando por uma época onde o foco é criar sequências desnecessárias, remakes ou Live actions que ninguém pediu apenas para vender mais produtos, parece que não tem mais alma algumas dessas produções.
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