sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O Oscar 2026 esnoba os animes na premiação de melhor animação

Fala pessoal! Hoje esse post seria para falar dos indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação, mas o sentimento de indignação é tão grande que resolvi dedicar esse espaço a discutir por que o Oscar continua tratando animação — especialmente anime — como algo menor, mesmo quando estamos falando de verdadeiras obras de arte.

E sim, isso inclui o fato de vermos filmes como Elio na lista, enquanto produções como Demon Slayer: Infinity Castle ou Chainsaw Man – Reze Arc simplesmente não aparecem — mesmo considerando nível técnico, direção, animação, narrativa e impacto cultural.


O problema não é só a lista de 2026 — é um padrão

O que incomoda não é apenas “quem entrou” — é quem SEMPRE fica de fora.

Existe um padrão claro nas premiações:

  • Animações 3D de grandes estúdios ocidentais são tratadas como o “padrão de qualidade”
  • Animações 2D, principalmente japonesas, precisam ser excepcionais ao extremo só para serem consideradas

Criou-se uma ideia quase automática de que 3D = superior, quando isso simplesmente não é verdade. Técnica não é só software — é direção, fluidez, composição, linguagem visual e impacto emocional.

E, nesse quesito, muitas produções japonesas estão anos-luz à frente.


O Oscar não premia os melhores — premia os que se encaixam na narrativa deles

Vamos falar o que muita gente pensa e pouca gente fala: O Oscar deixou de ser um prêmio puramente artístico faz tempo. Ele premia o que se encaixa na narrativa institucional, política e industrial da Academia. Não que na sua origem isso não fosse verdade, mas havia ao menos o critério de qualidade em premiar as obras, agora parece premiar puramente a ideologia.

Isso não significa que os filmes premiados sejam ruins — mas significa que qualidade artística por si só não decide nada.

Campanha de estúdio, discurso alinhado, visibilidade em Hollywood e “palatabilidade cultural” pesam tanto quanto — ou mais — do que inovação.

E é aí que muitos animes ficam para trás.


A sub-representação de animes não é coincidência

Mesmo com o crescimento global da indústria japonesa de animação, o reconhecimento do Oscar é extremamente limitado.

O Studio Ghibli é praticamente a única exceção recorrente — e ainda assim, uma fração mínima de suas obras-primas recebeu reconhecimento se compararmos com sua importância artística.

Mas o caso mais simbólico de todos é outro.


Akira (1988) — a obra que mudou a animação mundial e nunca teve reconhecimento

Quando falamos de injustiça histórica, é impossível não citar Akira, a icônica animação da moto vermelha, dirigida por Katsuhiro Otomo.

Esse filme:

  • redefiniu a animação adulta

  • moldou o cyberpunk no cinema

  • influenciou obras como Matrix

  • elevou o anime a outro patamar no Ocidente

  • é estudado até hoje por direção, trilha e animação

E mesmo assim…

Nunca foi indicado ao Oscar.

A categoria “Melhor Filme de Animação” só foi criada em 2001, o que por si só já revela como a Academia historicamente tratava a animação como uma forma de arte secundária, quase como um subproduto do cinema “de verdade”.

Mas esse argumento não inocenta o Oscar no caso de Akira.

Porque muito antes de 2001, a Academia já havia reconhecido o valor artístico da animação. Em 1939, Walt Disney recebeu um Oscar honorário por Branca de Neve e os Sete Anões — uma premiação histórica e merecida, já que o filme foi um marco técnico e cultural.

Ou seja, quando a animação vinha do eixo que Hollywood reconhecia e produzia, ela era tratada como revolução artística. Quando a revolução veio do Japão, com uma obra como Akira, o reconhecimento institucional simplesmente não existiu.

Isso deixa claro que o problema nunca foi apenas “não haver categoria”. O problema sempre foi quais obras eram vistas como dignas de legitimação cultural pela Academia.

Assim, o caso de Akira se torna simbólico:

  • Uma das obras mais influentes da história da animação mundial
  • Um filme que redefiniu estética, narrativa e público-alvo da animação
  • Um divisor de águas na popularização do anime no Ocidente

…surgiu em um período em que o Oscar ainda tratava animação como arte menor — a menos que viesse do seu próprio centro cultural.

E o padrão não desapareceu com a criação da categoria em 2001. Ele apenas mudou de forma:

Hoje, animes revolucionários continuam fora do radar principal, enquanto produções alinhadas ao modelo industrial hollywoodiano dominam as indicações.

Não é coincidência. É continuidade histórica.


“Mas e os filmes da Disney/Pixar?”

Ninguém está dizendo que Disney ou Pixar são ruins. Elas criaram clássicos.

O problema é o momento atual.

Nos últimos anos, vemos:

  • continuações desnecessárias

  • fórmulas repetidas

  • narrativas seguras

  • foco em mercado e marca

Qual foi a última obra realmente inovadora da Disney/Pixar que não dependia de franquia ou nostalgia? Agora estamos chegando em Toy Story 5 — um filme que existe claramente por valor comercial, não por necessidade narrativa.

Enquanto isso, animes arriscam linguagem, estilo visual, estrutura e temática — e ficam de fora.


Então por que Elio entra, mas Demon Slayer não?

Você pode gostar de Elio. Mas comparar a escala de produção, direção de ação, coreografia animada e impacto cultural de Demon Slayer ou Chainsaw Man com ele e dizer que a exclusão é puramente “mérito artístico” é difícil.

A verdade é mais simples:

  • O Oscar favorece o que é familiar ao seu ecossistema
  • Favorece o que circula dentro da indústria americana
  • Favorece narrativas seguras

E isso faz com que obras que expandem o que a animação pode ser acabem ignoradas.


Conclusão: o Oscar não é mais termômetro de excelência em animação

A animação é uma das formas de arte mais criativas, técnicas e expressivas do cinema. Ela permite mundos impossíveis, narrativas visuais complexas e uma liberdade estética que o live-action muitas vezes não alcança.

Mesmo assim, o Oscar ainda a trata como:

  • uma categoria secundária

  • um produto essencialmente familiar

  • ou uma plataforma conveniente para discursos institucionais

Enquanto essa mentalidade persistir, o cenário continuará previsível:

  • Obras japonesas expandindo os limites da linguagem da animação
  • Hollywood sendo legitimada como padrão de excelência

E isso não é sobre “gostar mais de anime”. É sobre coerência artística.

Se um prêmio se apresenta como referência máxima de qualidade cinematográfica, ele precisa avaliar inovação, linguagem, impacto cultural e mérito técnico — não apenas familiaridade industrial, campanhas de estúdio ou alinhamento com narrativas confortáveis ao seu próprio sistema.

Mas há tempos o Oscar — assim como várias grandes premiações — deixou de funcionar como um termômetro confiável de excelência artística. Em vez disso, tornou-se um espaço onde interesses de indústria, posicionamentos institucionais e discursos ideológicos frequentemente se sobrepõem ao critério puramente artístico.

E quando isso acontece, o prêmio pode continuar sendo relevante como espetáculo — mas deixa de ser referência absoluta de qualidade.

E o público percebe isso. Basta olhar para o sucesso massivo de bilheteria e o impacto cultural de muitas obras ignoradas nessas premiações. A audiência reconhece valor, inovação e emoção mesmo quando as estatuetas não acompanham.

No fim, a história do cinema não é escrita apenas pelos troféus — ela é escrita pelas obras que permanecem.

Um comentário:

  1. Excelente texto, concordo plenamente com os tópicos apresentados. Faz tempo que oscars (e muitos outros prêmios do tipo) não passam mais credibilidade ou reconhecimento para obras que merecem. Sei que o foco aqui foi em questão a animação japonesa, mas o mesmo acontece com diversos filmes em outras categorias, principalmente se forem de origem estrangeira. O foco deles não é apresentar ideias novas, premiar filmes e animações que merecem o merito, mas sim, apenas saciarem o próprio ego. Não há mais legitimidade, tudo é planejado desde o início de quem será o premiado, independente se houve um outro filme ou animação que superou todos os outros. E concordo também com a questão de estarmos passando por uma época onde o foco é criar sequências desnecessárias, remakes ou Live actions que ninguém pediu apenas para vender mais produtos, parece que não tem mais alma algumas dessas produções.

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