sexta-feira, 24 de julho de 2026

Novo Trailer de Resident Evil Tem Muito Terror, Mas Pouco Resident Evil

A Sony Pictures divulgou o segundo trailer do novo Resident Evil, filme que estreia nos cinemas em 18 de setembro. A prévia aposta em uma atmosfera pesada, criaturas perturbadoras e um terror muito mais psicológico, sugerindo que o longa pode agradar aos fãs do gênero. Ao mesmo tempo, ela reacendeu um debate que acompanha Hollywood há muitos anos: até que ponto uma adaptação pode reinterpretar uma grande franquia sem perder justamente aquilo que a tornou inesquecível?

Como o filme ainda não estreou, qualquer conclusão definitiva seria precipitada. Entretanto, o primeiro trailer já permite discutir algumas escolhas criativas que podem dividir opiniões entre os fãs da série da Capcom.


Um ótimo filme de terror... mas será um bom Resident Evil?

Visualmente, o trailer impressiona. A fotografia, a direção de arte e a construção da tensão sugerem que o longa pode entregar uma experiência bastante competente dentro do terror.

Entretanto, algumas cenas passam a impressão de pertencer muito mais a franquias como Silent Hill, Outlast ou até filmes de possessão demoníaca do que ao universo criado pela Capcom.

O exemplo mais evidente é a sequência em que braços e pernas surgem pela porta, formando uma criatura grotesca. A cena funciona como horror visual, mas dificilmente remete ao terror biológico, aos experimentos científicos e à atmosfera que fizeram Resident Evil se tornar uma das franquias mais importantes dos videogames.


Quando a visão do diretor pode falar mais alto que a obra

O diretor possui um bom histórico dentro do gênero de terror, e isso fica evidente em praticamente todos os momentos do trailer. Caso estivesse criando uma franquia inédita, dificilmente haveria motivo para preocupação.

A questão surge justamente porque estamos falando de uma adaptação. Em entrevistas, o próprio diretor deixou claro que sua intenção não é adaptar diretamente os acontecimentos dos jogos.

"Não vou contar a história do Leon. (...) Não vou usar nenhum dos personagens dos jogos. Vou contar a minha história, que existe no mundo de Resident Evil 2. Você poderia jogar Resident Evil 2 e nunca saber que os eventos da minha história estão acontecendo ali do lado, mas eles estão."

Naturalmente, toda adaptação possui liberdade criativa. O ponto que preocupa parte dos fãs é quando essa liberdade parece se tornar mais importante do que a própria identidade da obra original.

Esse, aliás, não é um hábito recente de Hollywood. Ao longo das últimas décadas, diversas adaptações acabaram priorizando a visão autoral de seus realizadores em detrimento dos elementos que tornaram determinadas franquias verdadeiros clássicos.

Um exemplo recente é A Odisseia, de Christopher Nolan. (Spoilers a seguir.) Embora o filme tenha recebido elogios por sua direção, uma das críticas recorrentes foi a redução significativa da participação dos deuses na jornada de Odisseu. Essa escolha enfraquece justamente o aspecto fantástico e lúdico que transformou o poema de Homero em uma obra atemporal, privilegiando uma abordagem muito mais realista da narrativa.

O receio de parte dos fãs é que Resident Evil siga um caminho semelhante: entregar um excelente filme de terror, o que por si só envolvendo essa saga já seria um feito considerando os últimos anos, mas que apenas utilize o universo da franquia como pano de fundo para contar uma história praticamente independente.


Pequenos easter eggs talvez não sejam suficientes

Referências aos jogos sempre agradam aos fãs, mas dificilmente substituem a identidade construída pela franquia ao longo de quase três décadas.

Resident Evil não é lembrado apenas por seus personagens. Sua ambientação em 1998, o terror biológico, os experimentos da Umbrella, a atmosfera de Raccoon City e a constante sensação de sobrevivência são elementos que definem a série tanto quanto Leon, Jill, Chris ou Claire.

Caso esses pilares realmente fiquem em segundo plano, existe a possibilidade de o longa funcionar muito bem como um filme de terror, mas encontrar dificuldades para convencer quem esperava uma adaptação que capturasse a essência dos jogos. Afinal, pequenas referências visuais — como a clássica máquina de escrever, as caixas de munição da shotgun ou os icônicos sprays de primeiros socorros — podem arrancar um sorriso dos fãs mais atentos, mas será que alguns easter eggs são suficientes para compensar a ausência da identidade que transformou Resident Evil em uma das maiores franquias da história dos videogames?


Conclusão

Ainda é cedo para julgar o resultado final. O trailer representa apenas alguns minutos de um filme que só poderá ser avaliado completamente quando chegar aos cinemas em 18 de setembro.

Por enquanto, tudo indica que Resident Evil pode entregar um terror competente e visualmente marcante. A grande dúvida é se ele também conseguirá transmitir a identidade que fez da franquia da Capcom um dos maiores nomes da história dos videogames — ou se será lembrado como mais um caso em que a visão do diretor acabou falando mais alto do que a obra que inspirou a adaptação.

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