segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Quando a Desconstrução Começa a Destruir a Identidade das Grandes Franquias

De Star Wars à DC: Quando a Desconstrução Começa a Destruir a Identidade das Grandes Franquias

Existe uma diferença entre transformar uma franquia e descaracterizá-la. Grandes obras precisam evoluir. Novos autores naturalmente apresentam suas próprias ideias, novos personagens são introduzidos e histórias antigas podem ganhar interpretações diferentes. O problema começa quando essa evolução deixa de expandir o universo e passa a substituir aquilo que originalmente tornou a franquia especial.

Nos últimos anos, essa discussão ganhou força em torno de algumas das maiores propriedades do entretenimento ocidental. De Star Wars à DC e à Marvel, parte do público passou a questionar se determinadas produções ainda estão tentando contar histórias dentro desses universos ou se estão utilizando personagens conhecidos como veículos para novas visões políticas, sociais e ideológicas.

Isso não significa que toda mudança seja ruim ou que uma adaptação precise reproduzir fielmente cada detalhe do material original. Adaptação não é reprodução. A questão é outra: até que ponto uma obra pode ser modificada antes de deixar de representar aquilo que a tornou importante?


O problema não é mudar, mas esquecer a identidade

Personagens com décadas de história inevitavelmente possuem versões diferentes. Batman já foi interpretado de inúmeras maneiras. Superman passou por diversas fases. Os Jedi também foram apresentados sob perspectivas distintas. Isso faz parte da expansão natural de uma franquia.

Porém, existe uma diferença entre explorar novas possibilidades e utilizar uma característica isolada de uma história antiga para justificar uma transformação completa do personagem. Muitas dessas histórias são versões específicas ou interpretações alternativas que não necessariamente representam o verdadeiro legado daquele personagem ou daquela obra. Um fragmento não representa necessariamente décadas de construção.

Se procurarmos o suficiente, provavelmente encontraremos alguma história capaz de justificar praticamente qualquer interpretação. Da mesma forma, após determinada modificação, uma história paralela pode ser criada para reforçar a existência daquela ideia em outra mídia. O problema surge quando uma exceção passa a ser tratada como regra simplesmente porque ela é conveniente para a nova narrativa.

É nesse momento que surge uma situação curiosa: o personagem continua possuindo o mesmo nome, uniforme e símbolos, mas sua personalidade, seus valores e sua função dentro da história já não parecem os mesmos.


Star Wars, DC e o conflito com o passado

The Acolyte é um exemplo recente dessa discussão. A série tentou explorar uma visão mais ambígua dos Jedi e do conflito entre a Luz e o Lado Sombrio. A ideia de apresentar personagens imperfeitos ou questionar instituições não é incompatível com Star Wars. A própria franquia já fez isso diversas vezes.

O problema aparece quando essa complexidade moral começa a relativizar estruturas que são fundamentais para a própria mitologia da série. Complexidade não exige que todas as escolhas tenham o mesmo valor moral.

Na DC, discussões semelhantes aparecem em torno das novas interpretações de personagens clássicos. Hal Jordan, por exemplo, possui uma identidade construída durante décadas em torno de coragem, força de vontade, confiança e espírito aventureiro. Questões sociais podem perfeitamente fazer parte de uma história do Lanterna Verde, mas elas não deveriam necessariamente substituir aquilo que define o personagem.

O mesmo vale para Superman. Mudanças na origem de Clark Kent ou na relação com seus pais kryptonianos podem funcionar dramaticamente, mas também podem alterar a simbologia do personagem. Uma das ideias centrais do Superman sempre foi justamente a escolha de utilizar um poder extraordinário para proteger aqueles que não possuem o mesmo poder.

Quando mudanças desse tipo deixam de complementar a construção do personagem e passam a contradizer características fundamentais estabelecidas ao longo de décadas, surge uma questão legítima sobre sua descaracterização e sobre o respeito ao material original. Seria equivalente a, de repente, fazer com que Luffy simplesmente desistisse de ser o Rei dos Piratas, sem qualquer construção narrativa que justificasse essa decisão. O ponto é perguntar se essas mudanças enriquecem o personagem ou simplesmente criam uma versão diferente utilizando o mesmo nome.


Enquanto isso, o Oriente cria novas propriedades

Essa situação se torna ainda mais interessante quando observamos o crescimento das indústrias culturais asiáticas.

O Japão já possui uma enorme presença internacional através de anime, mangá, videogames e outras mídias. A China vem ampliando sua influência com propriedades como Genshin Impact, Wuthering Waves e Black Myth: Wukong, além de desenvolver plataformas próprias para criadores de conteúdo, como a Bilibili, que também compete pela atenção do público com plataformas ocidentais como o YouTube. A Coreia do Sul cresce através de webtoons, K-dramas, música e videogames, enquanto a Índia possui uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo.

Isso não significa que essas indústrias sejam perfeitas. Também existem produções ruins, decisões controversas e problemas criativos. A diferença é que muitos desses mercados continuam demonstrando capacidade de criar novas propriedades em vez de depender exclusivamente da reconstrução de franquias antigas. E há outro ponto importante: muitas dessas indústrias também demonstram uma preocupação significativa em preservar a identidade de suas franquias.

Isso pode ter consequências importantes no futuro. Durante décadas, a indústria do entretenimento ocidental, especialmente a dos Estados Unidos, foi responsável por algumas das principais referências culturais do planeta. Star Wars, Marvel, DC, Disney e outras franquias moldaram gerações. Mas relevância cultural não é permanente.

Anime, mangá, manhwa, jogos chineses, produções coreanas e cinema indiano estão disputando a atenção das mesmas novas gerações. Uma criança que hoje cresce acompanhando uma franquia japonesa ou chinesa pode, daqui a dez anos, considerá-la tão importante quanto gerações anteriores consideravam Superman, Batman ou Star Wars.

Para ser sincero, acredito que isso já tenha acontecido, pelo menos em parte, com a geração que cresceu nos anos 1990 e 2000 durante a ascensão dos animes no Ocidente. Para uma parcela significativa do público, Goku já possui um peso cultural comparável ou até superior ao de muitos personagens ocidentais tradicionais. E isso sem sequer colocar nessa equação nomes como Naruto, Pokémon, Digimon, One Piece e Bleach.


Uma franquia pode evoluir sem esquecer quem é

O público não rejeita necessariamente mudanças. Ele aceita novos personagens, novos estilos, novas histórias e até grandes alterações quando percebe que existe uma compreensão genuína da obra original e dos personagens abordados.

O que costuma gerar resistência é a sensação de que uma franquia conhecida está sendo utilizada apenas como embalagem para uma história que poderia existir independentemente daquela propriedade intelectual.

Existe, porém, uma alternativa muito mais interessante: evoluir sem abandonar a identidade.

É possível abordar questões contemporâneas sem transformar personagens clássicos em porta-vozes de uma determinada ideologia. É possível criar protagonistas diferentes sem diminuir os antigos. É possível apresentar conflitos morais sem destruir as estruturas que tornam aquele universo único. E, principalmente, é possível criar algo completamente novo.


O verdadeiro perigo não é mudar. É esquecer.

O problema não é uma obra possuir uma mensagem. O problema surge quando essa mensagem exige que a obra deixe de ser aquilo que era, quando a visão do autor se torna mais importante do que o personagem que ele recebeu para adaptar e quando existe a crença de que personagens estabelecidos precisam ser modificados para que novas ideias possam existir.

Se o Ocidente continuar desgastando suas grandes propriedades dessa maneira, o risco não será apenas produzir filmes ou séries ruins. O perigo maior será reduzir lentamente o valor cultural das próprias franquias que construíram sua posição no mercado mundial.

Enquanto isso, outros países continuarão criando novos mundos, novos personagens e novas propriedades intelectuais.

Uma franquia não desaparece necessariamente quando uma produção fracassa. Ela começa a desaparecer quando o público deixa de reconhecer nela aquilo que um dia o fez se apaixonar por aquele universo.

No fim, adaptar uma grande obra não deveria significar simplesmente encontrar uma maneira de torná-la diferente. Deveria significar compreender por que ela funcionou em primeiro lugar.

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